Divertido e sério, meio simples, meio confuso, Fútil e necessário, Feliz e triste, Bonito e feio, legal e chato, Inteligente e idiota. Efêmero e Eterno
por Ana Paula Sousa A modelo sugere uma pauta para a revista ccapa A fera, a bela, a cool. …Daniella investe Opinião. Primeiro, chega um e-mail com o assunto “Cicarelli”. Meia hora depois, toca o telefone. Do outro lado da linha, apresenta-se Camilo Corsaletti:
– Tudo bom? Sou assessor de Daniella Cicarelli.
– Pois não.
– Então, a Daniella adora a CartaCapital e a gente queria pensar numa pauta para a revista.
Uns poucos segundos de silêncio são quebrados pelo próprio Corsaletti. Ele cita as qualidades da cliente e sugere uma reportagem sobre o comportamento dos jovens. O “gancho”, explica, seria o programa Beija Sapo, que a modelo apresenta na MTV. Ao notar que a sugestão não empolga, larga as meias palavras:
– Que tipo de matéria com a Daniella poderia te interessar?
– Talvez uma conversa franca sobre o mundo das celebridades.
Corsaletti promete consultar a cliente. Telefonema vai, telefonema vem, um mês depois ele propõe uma data e garante:
– Você não vai se arrepender. Ela tem idéias ótimas.
Daniela recebe CartaCapital numa área reservada a visitantes no prédio-fortaleza em que vive, perto do Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Calça jeans, camisa e Havaianas, mostra-se simpática. E direta:
– O Camilo me disse que pode ser que nem saia nada. Se sair matéria, eu vou dizer: “Que bacana”. Se não sair, vou saber que não consegui dizer nem uma linha que interesse para a sua revista.
Despachada, sorriso largo, Daniella parece disposta a falar. A busca por CartaCapital faz parte de uma estratégia que, na publicidade, se chama de “reposicionamento de marca”. Depois do tumultuado casamento relâmpago com Ronaldo, Daniella perdeu a graça para as revistas de celebridades e viu os contratos publicitários escassearem. Seu propósito, agora, é investir na carreira de apresentadora de tevê e mostrar que nem só de beleza é feita. Mas, ao responder à primeira pergunta da entrevista, atesta outras razões:
– Por que te procurei? Número 1: é uma revista que eu leio. Número 2: as celebridades aparecem sempre nos mesmos lugares e eu acho isso tudo meio fútil.
E mostra ter o texto na ponta da língua:
– É uma curiosidade minha ver como a CartaCapital trataria esse assunto. Acho bacana ser analisada pela ótica da Carta, que, com certeza, não é a da Quem. Você não vai perguntar quem me deu esse relógio. Do mesmo jeito que tem gente mesquinha, tem revista mesquinha. Acho também que você não vai dizer que eu sou “alguém que as mulheres invejam e os homens desejam”. Péssima essa frase, não?
Daniella parece ter senso crítico. E fala à beça. Foram, ao todo, quase três horas de conversa. Antes de chegar aonde interessa, fala-se de esporte, homens, comida e beleza. Abre-se então espaço, não sem recuos, offs e evasivas, para o avesso do mundo das celebridades.
Com cuidado, Daniella mostra como vão sendo angariados, dia após dia, os tijolos de espuma usados na construção dos edifícios em que ficam os famosos.
– O grande golpe, hoje, não é o golpe do baú. É o golpe publicitário. Eu poderia estar aplicando esse golpe na Copa. Você imagina quanto eu poderia contabilizar com a Copa?
Não. A imaginação dos publicitários e dos promoters supera a dos jornalistas.
– Um quer ganhar em cima do outro. O que me chamaram para fazer na Copa é inacreditável. Além de publicidade, de andar por aí com camiseta da Seleção, me convidaram, por exemplo, pra ir a uma superfesta da Seleção na Alemanha. Aí, pronto, já teria aquela manchete: “Daniella aparece na festa e causa saia-justa”. É tudo contabilizado nesse meio.
Isso, Daniella não quis. Mas na semana em que seu ex estreava, capenga, na Alemanha, ela surgia em grandes outdoors anunciando, com uma tarja preta, uma marca de lingerie. Quer se livrar da imagem da jovem oportunista, da “bruxa” que expulsou uma convidada do casamento, mas não dispensa bons negócios:
– É claro que gosto de ganhar dinheiro. Mas sempre penso no custo moral do dinheiro. Essa conta só cabe a ela fazer.
– Tem comercial de varejo que eu vou lá, abro aquele sorriso de “nossa, como eu tô feliz com essa compra”, e pronto. Se me contratam para participar de uma corrida, cobro menos do que se for pra ir a uma festa, mesmo que seja para uma passadinha de dez minutos.
Segue um aviso para quem crê que Daniella seja festeira:
– Sempre que eu vou a uma festa é por uma razão comercial. Você nunca vai me ver fotografada numa festa de amigos, porque meus amigos de verdade não são famosos. Nessas “presenças”, vou lá, tiro uma foto do lado de não sei quem, fico o tempo que tem de ficar e vou embora. Tenho duas vidas, uma bem diferente da outra. É claro que eu gosto desse lado “glam” também. Se não gostasse, tinha ido fazer faculdade de direito pra virar advogada.
Mas o lado “glam” – o “glamour”, entre seus adeptos, ganhou esse apelido carinhoso – tem seu lado “trash”, para continuar nas expressões “in”:
– Teve momentos em que eu era o “ó”, péssima, e outros em que era “uau!”, o máximo. Depois do “uau”, nossa senhora, me trataram como sei lá o quê. Não só eu. Minha família toda ficou exposta. Era horrível minha mãe me ligar chorando. Enfim, mantive o que eu achei que deveria manter.
No meio do caminho, havia uma pedra, mas havia também uma possibilidade de carreira: apresentadora de tevê.
– Fui trabalhar com um público adolescente, que estava se lixando para o que as revistas de fofoca diziam. O que me mantinha em pé é que, entre o céu em que tinham me colocado e o inferno em que eu estava, alguma outra coisa tinha de existir. Neste momento, estou nisso, nem no céu nem no inferno.
O desejo de ser reconhecida e definida como apresentadora aparece numa pergunta boba: como ela preenche uma ficha de hotel?
– Sempre coloquei estudante, sabe? De um ano pra cá, comecei a escrever apresentadora de tevê. É essa minha profissão.
Mas os cifrões da publicidade e as páginas “glam” da imprensa ainda são fundamentais:
– Pra algumas coisas, é quase impossível dizer não. Se eu estréio uma propaganda e sai uma foto na revista de celebridades, o anunciante fica feliz da vida e me chama de novo. Às vezes, isso está no contrato. Também pode estar no contrato a exigência de fazer coletiva de imprensa, porque aí o anunciante ganha mídia espontânea. Como já te disse, tudo nesse mundo é contabilizado. Tudo mesmo. Contabilizado e negociado.
– Tem assessor que vira celebridade, tem assessor que negocia matéria prometendo uma exclusiva com fulano se publicarem uma notinha de outro cliente seu, menos famoso. Na época da separação, se eu tivesse mostrado a minha casa, talvez dissessem que eu moro num lugar ‘lindo e maravilhoso’, em vez de me chamar de oportunista. Enfim, não posso apedrejar a imprensa, até porque preciso dela.
Daniella fecha assim o baú em que guarda as observações mais agudas. Aos 27 anos, parece ter entendido algumas coisas:
– Sou um produto que a mídia consome. Na verdade, eu posso ser muito melhor ou muito pior do que o que aparece por aí. Às vezes, sou a bonita e burra, outras vezes, a interesseira. Se isso me incomoda? Sim, mas já incomodou mais. Também aprendi que a beleza cansa. Quando um homem te quer só pela beleza, ele vai enjoar de você, como enjoa do carro que ele acha lindo quando compra. É tudo sonho de consumo.
17.08.07
A CICARELLI LIGOU
Carta CapitalEdição 399
por Ana Paula Sousa
A modelo sugere uma pauta para a revista
ccapa
A fera, a bela, a cool.
…Daniella investe
Opinião.
Primeiro, chega um e-mail com o assunto “Cicarelli”. Meia hora depois, toca o telefone. Do outro lado da linha, apresenta-se Camilo Corsaletti:
– Tudo bom? Sou assessor de Daniella Cicarelli.
– Pois não.
– Então, a Daniella adora a CartaCapital e a gente queria pensar numa pauta para a revista.
Uns poucos segundos de silêncio são quebrados pelo próprio Corsaletti. Ele cita as qualidades da cliente e sugere uma reportagem sobre o comportamento dos jovens. O “gancho”, explica, seria o programa Beija Sapo, que a modelo apresenta na MTV. Ao notar que a sugestão não empolga, larga as meias palavras:
– Que tipo de matéria com a Daniella poderia te interessar?
– Talvez uma conversa franca sobre o mundo das celebridades.
Corsaletti promete consultar a cliente. Telefonema vai, telefonema vem, um mês depois ele propõe uma data e garante:
– Você não vai se arrepender. Ela tem idéias ótimas.
Daniela recebe CartaCapital numa área reservada a visitantes no prédio-fortaleza em que vive, perto do Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Calça jeans, camisa e Havaianas, mostra-se simpática. E direta:
– O Camilo me disse que pode ser que nem saia nada. Se sair matéria, eu vou dizer: “Que bacana”. Se não sair, vou saber que não consegui dizer nem uma linha que interesse para a sua revista.
Despachada, sorriso largo, Daniella parece disposta a falar. A busca por CartaCapital faz parte de uma estratégia que, na publicidade, se chama de “reposicionamento de marca”. Depois do tumultuado casamento relâmpago com Ronaldo, Daniella perdeu a graça para as revistas de celebridades e viu os contratos publicitários escassearem. Seu propósito, agora, é investir na carreira de apresentadora de tevê e mostrar que nem só de beleza é feita. Mas, ao responder à primeira pergunta da entrevista, atesta outras razões:
– Por que te procurei? Número 1: é uma revista que eu leio. Número 2: as celebridades aparecem sempre nos mesmos lugares e eu acho isso tudo meio fútil.
E mostra ter o texto na ponta da língua:
– É uma curiosidade minha ver como a CartaCapital trataria esse assunto. Acho bacana ser analisada pela ótica da Carta, que, com certeza, não é a da Quem. Você não vai perguntar quem me deu esse relógio. Do mesmo jeito que tem gente mesquinha, tem revista mesquinha. Acho também que você não vai dizer que eu sou “alguém que as mulheres invejam e os homens desejam”. Péssima essa frase, não?
Daniella parece ter senso crítico. E fala à beça. Foram, ao todo, quase três horas de conversa. Antes de chegar aonde interessa, fala-se de esporte, homens, comida e beleza. Abre-se então espaço, não sem recuos, offs e evasivas, para o avesso do mundo das celebridades.
Com cuidado, Daniella mostra como vão sendo angariados, dia após dia, os tijolos de espuma usados na construção dos edifícios em que ficam os famosos.
– O grande golpe, hoje, não é o golpe do baú. É o golpe publicitário. Eu poderia estar aplicando esse golpe na Copa. Você imagina quanto eu poderia contabilizar com a Copa?
Não. A imaginação dos publicitários e dos promoters supera a dos jornalistas.
– Um quer ganhar em cima do outro. O que me chamaram para fazer na Copa é inacreditável. Além de publicidade, de andar por aí com camiseta da Seleção, me convidaram, por exemplo, pra ir a uma superfesta da Seleção na Alemanha. Aí, pronto, já teria aquela manchete: “Daniella aparece na festa e causa saia-justa”. É tudo contabilizado nesse meio.
Isso, Daniella não quis. Mas na semana em que seu ex estreava, capenga, na Alemanha, ela surgia em grandes outdoors anunciando, com uma tarja preta, uma marca de lingerie. Quer se livrar da imagem da jovem oportunista, da “bruxa” que expulsou uma convidada do casamento, mas não dispensa bons negócios:
– É claro que gosto de ganhar dinheiro. Mas sempre penso no custo moral do dinheiro.
Essa conta só cabe a ela fazer.
– Tem comercial de varejo que eu vou lá, abro aquele sorriso de “nossa, como eu tô feliz com essa compra”, e pronto. Se me contratam para participar de uma corrida, cobro menos do que se for pra ir a uma festa, mesmo que seja para uma passadinha de dez minutos.
Segue um aviso para quem crê que Daniella seja festeira:
– Sempre que eu vou a uma festa é por uma razão comercial. Você nunca vai me ver fotografada numa festa de amigos, porque meus amigos de verdade não são famosos. Nessas “presenças”, vou lá, tiro uma foto do lado de não sei quem, fico o tempo que tem de ficar e vou embora. Tenho duas vidas, uma bem diferente da outra. É claro que eu gosto desse lado “glam” também. Se não gostasse, tinha ido fazer faculdade de direito pra virar advogada.
Mas o lado “glam” – o “glamour”, entre seus adeptos, ganhou esse apelido carinhoso – tem seu lado “trash”, para continuar nas expressões “in”:
– Teve momentos em que eu era o “ó”, péssima, e outros em que era “uau!”, o máximo. Depois do “uau”, nossa senhora, me trataram como sei lá o quê. Não só eu. Minha família toda ficou exposta. Era horrível minha mãe me ligar chorando. Enfim, mantive o que eu achei que deveria manter.
No meio do caminho, havia uma pedra, mas havia também uma possibilidade de carreira: apresentadora de tevê.
– Fui trabalhar com um público adolescente, que estava se lixando para o que as revistas de fofoca diziam. O que me mantinha em pé é que, entre o céu em que tinham me colocado e o inferno em que eu estava, alguma outra coisa tinha de existir. Neste momento, estou nisso, nem no céu nem no inferno.
O desejo de ser reconhecida e definida como apresentadora aparece numa pergunta boba: como ela preenche uma ficha de hotel?
– Sempre coloquei estudante, sabe? De um ano pra cá, comecei a escrever apresentadora de tevê. É essa minha profissão.
Mas os cifrões da publicidade e as páginas “glam” da imprensa ainda são fundamentais:
– Pra algumas coisas, é quase impossível dizer não. Se eu estréio uma propaganda e sai uma foto na revista de celebridades, o anunciante fica feliz da vida e me chama de novo. Às vezes, isso está no contrato. Também pode estar no contrato a exigência de fazer coletiva de imprensa, porque aí o anunciante ganha mídia espontânea. Como já te disse, tudo nesse mundo é contabilizado. Tudo mesmo.
Contabilizado e negociado.
– Tem assessor que vira celebridade, tem assessor que negocia matéria prometendo uma exclusiva com fulano se publicarem uma notinha de outro cliente seu, menos famoso. Na época da separação, se eu tivesse mostrado a minha casa, talvez dissessem que eu moro num lugar ‘lindo e maravilhoso’, em vez de me chamar de oportunista. Enfim, não posso apedrejar a imprensa, até porque preciso dela.
Daniella fecha assim o baú em que guarda as observações mais agudas. Aos 27 anos, parece ter entendido algumas coisas:
– Sou um produto que a mídia consome. Na verdade, eu posso ser muito melhor ou muito pior do que o que aparece por aí. Às vezes, sou a bonita e burra, outras vezes, a interesseira. Se isso me incomoda? Sim, mas já incomodou mais. Também aprendi que a beleza cansa. Quando um homem te quer só pela beleza, ele vai enjoar de você, como enjoa do carro que ele acha lindo quando compra. É tudo sonho de consumo.
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